20/03/2011

"Vos, juízes e sacerdotes, não quereis matar enquanto a besta não haja inclinado a cabeça? Vede: o pálido delinqüente inclinou a cabeça; em seus olhos fala o supremo desprezo.
“O meu Eu deve ser superado: o meu Eu é para mim o grande desprezo do homem.” Assim falam os olhos dele. O seu maior momento foi aquele em que a si mesmo se julgou. Não deixeis o sublime tornar ai cair sobre sua baixeza!
Para aquele que tanto sofre por si, só há salvação na morte rápida.
O vosso homicídio,oh! Juízes! Deve ser compaixão, e não vingança. E ao matar, tratai de justificar a própria vida.
Não vos basta reconciliar-vos com aquele que matais. Seja a vossa tristeza amor ao Super-Homem; assim justificais a vossa supervivência!
Dizei: ‘inimigo’, ‘malvado’ não; dizei ‘enfermo’ e não ‘infame’; dizei ‘insensato’ e não ‘pecador’.
E tu, vermelho juiz, se dissesses em voz alta o que já fizesses em pensamento, toda gente gritaria: Abaixo essa imundice e esse verme venenoso...!
Uma coisa, porém, é o pensamento, outra a ação, outra a imagem da ação. A roda da casualidade não gira entre elas.
Uma imagem fez palidecer esse homem pálido. Ele estava a altura do seu ato quando o realizou, mas não suportou não suportou a sua imagem depois de o ter consumado.
Sempre se viu só, como autor de um ato. Eu chamo isso de loucura; a exceção converteu-se para ele em regra.
O golpe que deu, fascina-lhe a pobre razão: a isso eu chamo de loucura depois do ato.
Ouvi, juízes! Ainda há outra loucura: a loucura antes do ato. Ah! Não penetrastes profundamente nessa alma.
O juiz vermelho fala assim: “por que foi que este criminoso matou? Queria roubar.”
Mas eu vos digo: a sua alma queria sangue e não roubo;tinha sedo do gozo da faca”
A sua pobre razão, porém, não compreendia essa loucura e decidiu-o. ‘que importa o sangue? – disse ela. – nem ao menos desejas roubar ao mesmo tempo? Não te desejas vinga?’
E atendeu sobre sua pobre razão, cuja linguagem pesava sobre ele como chumbo; então roubou ao assassinar. Não se queria envergonha da sua loucura.
E agora pesa sobre ele o chumbo do seu crime; mas a sua pobre razão esta tão paralisada , tão torpe!...
Se ao menos pudesse sacudir a cabeça, a sua carga cairia, mas, quem sacudirá esta cabeça?
Quem é este homem? Um conjunto de enfermidades que, pelo espírito, abrem caminhos para fora do mundo, onde queres apanhar a sua presa.
Que é este homem? Um magote de serpentes ferozes que se não pode entender; por isso cada qual vai por seu lado procurar presa pelo mundo.
Vede este pobre corpo! O que ele sofreu e o que ele desejou, a alma o interpretou a seu favor; interpretou-o como gozo e desejo sanguinário do prazer da faca.
O que enferma agora, vê-se dominado pelo mal, que é o mal agora; quer fazer sofre o que o faz sofre; mas houve outros tempos e outros males e bens.
Dantes era uma mal a dúvida e a vontade própria. Então o enfermo torna-se herege e bruxa; como herege e bruxa padecia e fazia padecer.
Mas isso não quer entra em vossos ouvidos; prejudica, dizeis, os vossos bons; mas que me importa a mim os vossos bons?
Nos vossos bons há muitas coisa que me repugnam, e de certo não é o seu mal.
Quereria que tivessem uma loucura que os levasse a sucumbir, como esse pálido criminoso.
Quereria que sua loucura se chamasse verdade, ou fidelidade, ou justiça; mas têm virtude para viver em mísera conformidade.
Eu sou um anteparo na margem do rio; aquele que puder prender-me, que o faça. Saiba-se, porém, que não sou vossa muleta.
Assim falava Zaratustra.
"

Friedrch Nietzsche 

Nenhum comentário:

Postar um comentário