21/04/2015

Dia desses
vagando pelas ruas daqui
ouvi
da sacada de um casebre
uma mulher que lamentava em seu quarto

Dizia ela que estara velha demais
para o homem a quem se apaixonara
Louca demais
Destruída demais

Comparava-se às coisas do quarto
E dizia:
'Por que dentre as coisas, só as mulheres envelhecem?'

Não conheço a quem não renuncie à velhice
Mas como pode ela
comparar o calor de seu corpo
à frieza das coisas criadas pelo homem?!

Não duvido que esta creia que Eva saiu de Adão para servir a ele
E a isto digo que não

Que não saí do homem
Ele saiu de mim
E que a beleza da minha idade reflete as coisas que vivi

E que o flautista de mãos e bocas incríveis
que vem a ela fazer serenata no jardim,
de seu corpo recusar-se, digo-lhe que quente e velha como ela sou
e que renuncio a todas as coisas frias do quarto
para que não esmaeçam o nosso amor.


11/04/2015

Um arrepio sobe a espinha
Algo flui como se
procurasse sair

Mordo os lábios
como se me engolisse
Mastigo como se quisesse sorrir
Não faço poesia marginal
Não tenho revolução
Não tenho discurso
Meus sonhos são em vão

Afinal faço poesia marginal
Estou à margem dos que sentem
À margem dos que escrevem
À margm das métricas bonitas
Das rimas ricas
E dos sonetos leves